Despertando das Sombras
Tento respirar pela boca enquanto encaro uma escova sanitária tão cansada quanto eu. Cerdas tortas, uma veterana de guerras contra a imundície. Hoje, como sempre, o banheiro da Ala 3 é meu campo de batalha.
Tampo o nariz com o antebraço e encaro a privada. Minha cara se contorce. Ao lado, uma poça de vômito, presente de algum bêbado generoso.
A Ala 3 faz questão de lembrar, todo dia, que viver aqui embaixo se resume a infinitas camadas de cimento e porquice.
A água que cai no balde desce amarelada, como tudo aqui, morna, velha e com gosto de limo. Minhas mãos calejadas esfregam crostas que criaram raízes. Os dutos de ventilação parecem sussurrar: “Sai daí, Sarah”. Às vezes penso que esse sussurro é a Toca respirando. Às vezes penso que é a Toca me engolindo, e que um dia eu simplesmente vou fazer parte do concreto.
Doze anos. Doze anos fazendo isso. Já perdi a conta de quantas privadas lavei, de quantos panos torci, de quantos pisos esfreguei, encharcados de coisas que finjo não saber o que são. Comecei tão nova que nem conseguia carregar um balde sem entornar. Agora carrego dois.
Tento endireitar a coluna e a pontada de dor me dobra. Vinte e oito anos e já cogitando uma aposentadoria precoce. Apoio as mãos na pia, me ergo devagar, e é aí que vejo.
No espelho manchado de ferrugem, alguém rabiscou com o que parece ser sangue:
“Que o Sol nos presenteie com sua Liberdade.”
Fico parada. As letras são irregulares e apressadas. Quem escreveu isso sabia que podia ser pego a qualquer momento. Passo o dedo pela borda do “S” e ele volta avermelhado.
Ainda está fresco.



